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Palavra Encantada: Escrever um livro para crianças

Escrito em 01 de junho de 2020


Olá, Cúmplices da Escrita!


Indo de encontro à celebração do dia da criança, o post de hoje é dedicado aos amantes de literatura infantil.


Recordo-me, com imenso prazer, de centenas de noites em que a minha mãe me lia histórias repletas de aventura e amor, antes da minha hora de dormir. À medida que ia crescendo, alternávamos. Uma noite lia ela, outra noite lia eu. Era o incentivo literário perfeito!
Tal como acontece em todos os géneros literários, escrever um livro para crianças, revela-se um verdadeiro desafio. Como tal, reuni algumas dicas interessantes, que decidi partilhar com todos vós, especialmente, com os que sonham escrever para os mais pequenos. Espero que ajude!


Abordagem, Vocabulário & Estrutura


   O primeiro passo, recai na decisão da faixa etária dos pequenos leitores. Se pretendes escrever para crianças, é importante utilizar a mesma voz do público-alvo. Por vezes, na tentativa de elaborar mais um texto, facilmente se cai no erro de utilizar palavras que uma criança não utiliza, ou ainda desconhece.

Lembra-te: a intenção é escrever um livro para crianças e não um texto académico. A voz que conecta com o leitor tem de ser autêntica.


Pequenos leitores conseguem ser muito perspicazes!

   Eu gosto de imaginar as diversas faixas etárias como se fossem culturas diferentes, com perspetivas próprias e interesses específicos.

   Consegues imaginar escrever um livro a respeito de uma cultura, substancialmente diferente da tua, sem teres tido um estudo prévio e profundo sobre a mesma? Querendo que o leitor aceite a tua opinião pessoal sobre como deve agir, pois se não o fizer, está errado... e conseguir lançar, ainda assim, um livro de sucesso?!


   Não quero com isto dizer que tens de aprender todas as tendências e expressões que se encontram “na moda”, pois isso acaba por datar o teu trabalho, algo que nem sempre é bem aceite pelas editoras que procuram escritores de literatura infantil. Mas é importante que as tuas personagens se façam ouvir como crianças, que pensem como crianças. Que tenham nomes, ou até, alcunhas típicas de crianças. Parece estranho mencionar mas, como referi, pequenos leitores conseguem ser muito perspicazes.


Então, alguns motivos que dificultam a ligação com os pequenos leitores:

>> Vocabulário demasiado complexo e adulto
>> Estruturas de frase demasiado complexas
>> Monólogos excessivamente compridos


   Mais uma vez, o problema não recai na incapacidade do pequeno leitor conhecer o significado da palavra, ou que não consiga acompanhar a frase, ou monólogo. É apenas porque eles não irão acreditar em ti, se escolheres utilizar estas características. Não irão acreditar em miúdos que falam como adultos. Não irão acreditar em crianças que tenham longas discussões envolvendo deveres, emoções ou moralidade. Se eles não acreditarem em ti, perderás a oportunidade de fazer com que a tua história se conecte com eles.


Analisando um pouco melhor a escolha da faixa etária, surge a questão:
Deverei decidir, primeiramente, qual a idade do meu público-alvo e depois imaginar uma ideia adequada à idade escolhida? Ou deverei escrever uma história em particular, e depois escolher a faixa etária mais adequada?


Honestamente, creio que poderá resultar de ambas as formas!


Existem algumas questões que poderás colocar:

Será que os pequenos leitores sentirão curiosidade com esta ideia? Será que se conseguirão identificar com esta personagem? Ou identificarem-se com esta situação?

Em caso de uma resposta negativa a estas questões, possivelmente precisarás de redefinir uma faixa etária mais adequada. Ou ainda, agarra a tua ideia maravilhosa e questiona-te qual a idade que terá mais interesse em lê-la.


   Na ficção, a idade da personagem determina a idade do pequeno leitor. Crianças querem ler a respeito de alguém, aproximadamente, da mesma idade ou um pouco mais velho e visualizar como poderão vir a ser, dentro de poucos anos.


   Uma boa história, provoca os pequenos leitores a pensarem. Este processo, é habitualmente conhecido como escrita inteligente. Não se trata da vontade de educar a criança de outrem, não. Nem de dizer às crianças o que devem pensar. Escrita inteligente, apenas incentiva um pequeno leitor a pensar em algo novo, ou, por vezes, em algo significativamente familiar, numa perspetiva completamente nova. Expande o seu mundo.


   Uma boa história infantil poderá provocar o pequeno leitor a refletir sobre injustiça – o que se trata. Ou a criar questões quanto a algo ser diferente daquilo que inicialmente achava. Poderá afetar as suas escolhas e ações. Provocar questões a respeito do que é certo e errado.
A escrita inteligente incentiva os pequenos leitores a colocarem questões, a pensarem, a explorarem, a examinarem. Não diz a forma como o devem fazer, apenas incentiva a colocarem o mundo em perspetiva.


Mas... e se eles não perceberem? Não deveremos tentar mostrar-lhes o que fazer, em prol de um papel mais positivo na sociedade?


   Escrita inteligente respeita a habilidade de pensar do pequeno leitor e de fazer escolhas certeiras, dada a perspetiva suficiente. Reconhece que, apenas porque o pequeno leitor utiliza contradições, fala de forma breve e espontânea - em vez de utilizar longos monólogos - ou por ter desenvolvido uma linguagem inteiramente simplificada, utilizando os seus dedos para teclar, não significa de que algo está errado com o seu jovem cérebro. A escrita inteligente reconhece que aprendemos mais resolvendo e esmiuçando o problema, do que meramente tomar conhecimento da solução. No final de uma boa história infantil, o enredo é levado a um fim satisfatório, ainda que provocando a sensação de que ainda agora começou.


Partilharei, seguramente, mais dicas sobre como escrever um livro para crianças, mas, por agora, espero ter inspirado alguma curiosidade quanto ao tema.

Obrigada pela companhia e... não te esqueças de alimentar a criança que há em ti!

Feliz dia da criança!
Xo,

Susana