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Um pintor, Quatro escritores, com o artista plástico Yves Decoster - Quadro VIII

Escrito em 06 de março de 2020


A união artística é, simplesmente, mágica! Muito obrigada pelo convite e confiança. Adorei o desafio e desejo, a esta equipa maravilhosa, todo o sucesso!! <3

Veja a entrevista da exposição no canal de informação "Açores Hoje", aqui:

https://www.facebook.com/acores.hoje/videos/2258689961098720/

Quadro nr 8 , texto Susana Júdice

Embalada pelo luar que banhava o meu corpo, e alma, em perfeita sintonia com a serenidade da natureza ao meu redor, permiti-me fechar os olhos e devanear numa jornada interior, profunda, astuciosamente complexa de emoções. O mundo está a mudar, pensei. Gradualmente, a minha mente libertou-se de pensamentos contingentes, batalhando por compreender a inquietude que sentia no meu âmago.
No seio de um nevoeiro branco, que se esforçava por realçar o cerne da questão, vi-o, uma vez mais. Não era um sonho, era uma memória. A memória de um jovem enigmático. Um jovem sem braços. Um jovem de pele tingida. Um jovem que me disse tanto, sem ousar dizer nada. Concluí que fora o olhar, gesto poderoso, o verdadeiro provocador da minha inquietude. Diz o provérbio: os olhos são o espelho da alma. Se assim o é, o que eu vi, nos olhares que o cercavam primitivamente, foi o reflexo cruel da realidade; olhares que me conduziram a questões morais e sociais, que se tentaram sobrepor ao longo da existência humana, e que, na verdade, ainda tentam, pois vivemos numa sociedade imperfeita, que continua a ser demasiado rápida a julgar. A imagem, venerada, primordialmente.
Repentinamente, o ritmo frenético da minha mente levantou questões que deveriam ser simples de responder. Deveriam. O que é que nos distingue, enquanto seres humanos que somos? O que é que nos aproxima da essência humana? Mantive o foco no jovem. Como é que seria o mundo através dos seus olhos? Para ele, será a ausência de braços uma distinção explícita das nossas diferenças individuais, ou a aclamação de que somos todos iguais, apesar dessas mesmas diferenças? Para ele, será a sua pele tingida, uma representação da cultura envolta do berço que o viu nascer, desafiando limitações e obstáculos, ou será uma limitação mental, incutida, oprimindo sonhos de conquista e a liberdade de ser feliz, com o seu próprio reflexo?
O meu coração apertou-se de compaixão, impossibilitando o escape à ambiguidade de sentimentos e questões que me vexavam. Porém, obriguei-me a ter esperança. Esperança pelo jovem e esperança pelo mundo. Afinal de contas, o momento que prendeu o meu olhar ao seu, certamente manobrado pelas mãos do destino, permitiu-me sentir a sua essência apreensiva e sonhadora. Intensa, contudo sem exageros. Natural. A simplicidade gloriosa, entre a vontade de viver e a coragem necessária para o fazer. A memória desvaneceu-se com a expressão serena, assente nos seus lábios.
Inspirei fundo, abandonando, lentamente, a dimensão poética que criara na minha mente despida de preconceitos. Abri os olhos e sorri. O mundo está a mudar, pensei. Mas ainda há esperança.
Susana C. Júdice